O olivereduc começa esta segunda parte com uma pergunta: é possível o diálogo, o encontro, a caridade em uma sociedade polarizada? É possível um “convívio em harmonia” com pessoas que divergem de nós em temas fundamentais?
Nas notas do olivereduc destacarei certas questões e suas dificuldades.
Vamos agora à parte 2 do artigo.
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A arte do encontro

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”: o Papa Francisco cita essa frase da canção Samba da bênção, do músico e poeta brasileiro Vinicius de Moraes, em sua encíclica Fratelli tutti, convidando uma vez mais a desenvolver uma cultura do encontro. Sua exortação aponta para “uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças. Na realidade, de todos podemos aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo”[6].
Como corresponde fazê-lo entre irmãos – filhos do mesmo Pai – Francisco encarece: “Aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contato: tudo isto se resume no verbo “dialogar”. (a) Para nos encontrar e ajudar mutuamente, precisamos dialogar. Não é necessário dizer para que serve o diálogo; é suficiente pensar como seria o mundo sem o diálogo paciente de tantas pessoas generosas, que mantiveram unidas famílias e comunidades”[7].
A Congregação para a Doutrina da Fé indicou que “não cabe à Igreja formular soluções concretas – e muito menos soluções únicas – para questões temporais, que Deus deixou ao juízo livre e responsável de cada um, embora seja seu direito e dever pronunciar juízos morais sobre realidades temporais, quando a fé ou a lei moral o exijam”.
O pluralismo nas questões que Deus deixou à livre consideração dos homens é uma realidade evidente e devemos fazer o possível para que ele não se transforme em motivo de divisão. A diversidade constitui riqueza. Como também diz o prelado da Obra, Mons. Fernando Ocáriz, “é necessário conhecer os acertos dos diferentes posicionamentos, dialogar com outras pessoas, aprendendo de todos e respeitando esmeradamente a sua liberdade, mais ainda em matérias opináveis”[8].(
E aprofundando nos desafios da convivência em harmonia, com verdadeiro apreço e consideração pelos diferentes modos de pensar, o prelado adverte numa carta dedicada precisamente à amizade que “certas maneiras de se expressar podem atrapalhar ou dificultar a criação de um ambiente de amizade. Por exemplo, ser categórico demais ao expressar a própria opinião, dando a impressão de que achamos que nossas colocações são as definitivas, ou não se interessar ativamente pelo que os outros dizem, são maneiras de agir que nos fecham em nós mesmos. Em algumas ocasiões, esses comportamentos manifestam uma incapacidade de distinguir o que é opinável daquilo que não é, ou a dificuldade para relativizar questões em que as soluções não são necessariamente únicas”[9].(b)
Orientações para o caminho
Há muitos objetivos que os cristãos devem se esforçar para conquistar dentro da sua autonomia para percorrer os caminhos concretos que preferirem. Como explicava São Josemaria, a alguns não se pode renunciar: “Cumpre-nos defender o direito, que todos os homens têm, de viver, de possuir o necessário para desenvolver uma existência digna, de trabalhar e descansar, de escolher o seu estado, de formar um lar, de trazer filhos ao mundo dentro do matrimônio e de poder educá-los, de passar serenamente o tempo da doença ou da velhice, de ter acesso à cultura, de associar-se com os demais cidadãos para atingir fins lícitos, e, em primeiro lugar, de conhecer e amar a Deus com plena liberdade, porque a consciência – se for reta – descobrirá as pegadas do Criador em todas as coisas”[10].(c)

Um católico, porém, não deve desanimar diante das dificuldades do caminho escolhido, mas sim apoiar-se com confiança e otimismo em Deus. O Papa, em sua última Mensagem para a Jornada Mundial da Paz, dá algumas indicações para percorrer com segurança os diferentes caminhos, servindo-se da imagem da navegação: “Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a ‘bússola’ dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum”[11]. (d)
Devemos contar com esses dois instrumentos: o leme e a bússola, para descobrir nas vicissitudes de cada dia o rumo que o Senhor nos indica para cada um e em relação aos outros, para avançar com liberdade, fortalecer a nossa identidade cristã e a partir dela viver a caridade com todas as pessoas sem distinção.
Francisco dá mais uma pista, profunda e luminosa, para cada um: “Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança”[12].
Artigo originalmente publicado no site www.opusdei.org/es-cl.
(…)
[6] Francisco, encíclica Fratelli tutti, n. 215.
[7] Ibid. ,n. 198.
[8] Fernando Ocáriz, Carta 14/02/2017, n. 17.
[9] Fernando Ocáriz, Carta 1/11/19, n. 9.
[10] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 171.
[11] Francisco, Mensagem para a Jornada Mundial pela Paz,de 8/12/2020.
[12] Ibid, n. 9.
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Notas do olivereduc
a. É ensinamento católico básico a civilidade e o respeito por todas as pessoas. Todos são filhos de Deus. Ainda que, eventualmente, não acreditem nEle e até O combatam. Aqui entra outra questão que vou discutir em outra oportunidade: Não temos a obrigação de nos indignar diante do mal? Como conciliar esse dever com o de manter a caridade para com todos.
b. A caridade também exige que nos expressemos de modo adequado, respeitoso. Algo básico em qualquer sociedade civilizada.
c. O texto de S. Josemaría mostra claramente um ensinamento constante da doutrina católica, ou seja, que todo ser humano tem direito essencial a certas coisas, não só materiais, mas também espirituais. Diferentes ideologias materialistas-relativistas preocupam-se apenas, com as necessidades materiais e intelectuais do homem. É a visão laicista do homem, da sociedade, do Estado.

d. O Papa tem razão quando diz que o “leme da dignidade da pessoa humana e a ‘bússola’ dos princípios sociais fundamentais podem proporcionar-nos navegar com um rumo seguro e comum” Nós, católicos, não temos nenhuma dificuldade em aceitar tal verdade. A grande questão, ao dialogarmos com adversários, é que os conceitos foram distorcidos. Para nós, a dignidade da pessoa humana está ligada ao transcendente, a Deus. Por sua vez a palavra quando usada por revolucionários é com o fim de tornar lei até mesmo a interrupção intencional da gravidez e a prática da eutanásia. O próprio ex- ministro Barroso chegou a afirmar que o conceito de dignidade humana já não define mais nada… Há bastante debate jurídico sobre o assunto. A verdade é que o debate, em geral, é feito negando-se o direito natural na visão tomista.