REVOLUÇÕES NÃO NASCEM DO ACASO

(Há sempre uma cosmogonia na desordem)

O caos na França: a imigração, justiça e bem comum. (1)

Sidney Silveira

A desagregação social que se vê na França não nasceu ontem, nem pode ser explicada por uma única causa ou pelo acaso, pois o caos é sempre o termo visível de uma longa desordenação anterior: primeiro se perde a ordem dos princípios; depois, a dos costumes; em seguida, a das leis e instituições; por fim, a desordem aparece nas ruas.

Uma sociedade ou se ordena ao bem comum, ou começa lentamente a decompor-se. E isto vale para tudo: política, direito, moral, educação, cultura, arquitetura, economia, religião.

A Escola de Salamanca oferece categorias preciosas para compreender o fenômeno.

Francisco de Vitória, ao tratar do ‘ius peregrinandi’, por exemplo, reconhece o direito de viajar e comunicar-se entre os povos. Mas esse direito não aparece como um absoluto, pois o seu exercício está sujeito a uma condição decisiva: ‘sine aliquo tamen nocumento barbarorum’ – ou, traduzindo o conceito: sem, contudo, causar dano aos habitantes.

Eis o ponto esquecido.

O direito de peregrinar não significa um direito de desordenar a comunidade anfitriã. A hospitalidade é um bem; a comunicação entre os povos é um bem; mas nenhum bem particular pode converter-se em princípio de destruição do bem comum.

A questão da imigração, portanto, deveria ser posta noutros termos: em que quantidade, sob quais condições e mediante quais exigências uma comunidade pode receber populações estrangeiras sem comprometer a paz social, os costumes, a segurança, os serviços públicos e a continuidade de sua própria forma histórica de vida?

Estamos diante de uma política imigratória incapaz, durante décadas, de exigir reciprocidade de deveres e respeito efetivo à ordem cultural e jurídica do país; acrescente-se a isto um sistema assistencial que transforma acolhimento em dependência; sobrecarreguem-se serviços públicos, habitação, saúde e segurança – e depois contemple-se, com espanto burocrático, a deterioração da ordem social. Mas, neste caso, o espanto é precisamente o que não se justifica!

A França acrescenta a esse problema outro, muito anterior: uma velha cultura estatista. Em breves termos, desde há muito o francês se habituou à presença tentacular do Estado. O poder público tributa muito, regula muito, distribui muito, subvenciona muito e promete muito. Torna-se então psicologicamente normal o cidadão esperar do Estado aquilo que outrora esperava da família, das associações, das comunidades locais, das instituições religiosas e do próprio esforço pessoal.

O problema não está, evidentemente, em toda assistência pública. A justiça e o bem comum podem exigi-la! O erro está em transformar a assistência em princípio organizador da sociedade e, sobretudo, em separar progressivamente o benefício recebido dos deveres correspondentes para com a comunidade.

Até o combate ao desperdício alimentar é um pequeno símbolo dessa mentalidade desastrosa: nos últimos anos, o Estado francês chegou a legislar sobre o destino dos alimentos não vendidos pelos grandes supermercados, impondo obrigações relativas à sua destinação e doação. Não discuto aqui a boa intenção do legislador, mas aludo ao seguinte princípio: quando o Estado substitui sistematicamente, e por coerção jurídica, o que pertence à prudência, à responsabilidade e à liberalidade das pessoas, não fortalece as virtudes sociais, antes as debilita.

Para dizermos o mínimo, o que salta aos olhos são DESORDENS TRANSFORMADAS EM SISTEMA.

Ora, quando os direitos são separados dos deveres, a assistência da responsabilidade, a hospitalidade da prudência política e a lei de sua finalidade moral e pedagógica, não se estão simplesmente acumulando políticas equivocadas; está-se perdendo a noção de ordem.

Os salmanticenses compreenderiam perfeitamente o problema: justiça pressupõe ordem; lei pressupõe finalidade; autoridade pressupõe bem comum; e todo direito particular encontra a sua medida numa ordem superior de bens.

Quando o bem comum deixa de ser o princípio ordenador da sociedade, a desgraça social, cedo ou tarde, virá.

P. S. A imprensa internacional chamar isto de “MANIFESTAÇÕES ESTUDANTIS” é um insulto à inteligência de quem enxerga um palmo à frente do nariz.

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Nota 1. O subtítulo em itálico foi acrescentado pelo olivereduc.com

Fonte: Texto extraído da pág. Do FB do autor em 07 de outubro 2026

Sidney Silveira (Rio de Janeiro, 10 de junho de 1965) é jornalista, editor, escritor, professor e estudioso da filosofia medieval, conhecido por ser um dos maiores divulgadores da Escolástica no Brasil, com ênfase na obra de Tomás de Aquino.

Entre seus livros podemos citar “Cosmogonia da desordem: exegese do declínio espiritual do ocidente” Vide Editorial, 2024.

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