Nota prévia:

Muita gente estranha que membros do Opus Dei adotem diferentes posições políticas. Julgam que na Obra, se há unidade de pensamento e vida, todos deveriam seguir uma orientação única do Prelado, atualmente D. Fernando Ocáriz.
Essas pessoas desconhecem duas coisas: 1. As diretrizes do Magistério da Igreja sobre o assunto. 2. O espírito e o ensinamento de S. Josemaría e da Obra sobre o legítimo pluralismo político.
É um ponto importantíssimo a ser considerado. Especialmente quando a chamada polarização pode vir a se transformar em um maniqueísmo que não permite distinções e favorece o ódio entre as pessoas.
O artigo da Obra que reproduzimos abaixo mostra claramente qual deve ser a postura política de seus membros. Serve também, penso eu, a todos os católicos.
Segue o texto. Os destaques em negrito são do olivereduc. As notas do site, para evitar confusão, são com letras do alfabeto.
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O Opus Dei tem fins exclusivamente espirituais e apostólicos. Nos assuntos profissionais, sociais, políticos, econômicos, em tantas outras questões temporais, seus membros pensam e atuam com plena liberdade e responsabilidade pessoal, de acordo com as diretrizes do Magistério da Igreja nos aspectos doutrinais e morais. E o pluralismo que daí resulta não é apenas respeitado, mas querido e valorizado. (a)

Apenas terminada a guerra civil espanhola, em 1939, o fundador da Obra devia pregar um retiro espiritual num colégio universitário próximo de Valência. O recinto tinha sido utilizado durante o conflito como quartel, e os organizadores trabalharam ativamente para deixá-lo o mais em ordem possível. Pouco depois de chegar encontrou em um dos corredores um grande cartaz com os dizeres: “Cada caminhante siga seu caminho.” Quiseram tirá-lo, mas eu os impedi: deixem-no – disse-lhes – gosto dele”. Desde então, essas palavras serviram muitas vezes de tema para sua pregação: “Liberdade: cada caminhante siga seu caminho. É absurdo e injusto tentar impor a todos os homens um único critério, em matérias para as quais a doutrina de Jesus Cristo não indica limites”[1].
Liberdade e responsabilidade na atuação pública
Um traço que define o Opus Dei é a plena liberdade dos seus membros nas questões profissionais, políticas, sociais e econômicas. São Josemaria o afirmou constantemente desde o princípio. Foi publicado, há pouco, um volume com quatro cartas extensas do fundador. Na terceira – do começo de 1932 – afirma com energia que “a Obra não tem política alguma: não é esse o seu fim. Nossa única finalidade é espiritual e apostólica, e tem um selo divino: o amor à liberdade, que Jesus Cristo conseguiu para nós morrendo na Cruz”[2].
Os fiéis da Obra têm plena autonomia para adotar as atitudes que preferirem nos temas contingentes, da mesma forma que os outros cidadãos. Isso implica também o maior respeito para com os pareceres diversos de todas as outras pessoas. Tal equilíbrio desejável está muito bem expresso na sábia sentença atribuída a Santo Agostinho: “in necesariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas”: no necessário, unidade; no opinável, liberdade e em tudo, caridade. (b)

“Livremente – como filhos (…) não como escravos – seguimos a trilha que o Senhor marcou a cada um de nós” (Amigos de Deus, n. 35).
Esta realidade é coerente com a natureza do Opus Dei como instituição da Igreja Católica. Como expressou um documento da Congregação para a Doutrina da Fé sobre algumas questões relativas ao compromisso e a conduta dos católicos na vida política[3],“não é tarefa da Igreja proporcionar soluções concretas – e menos ainda únicas – para questões temporais, que Deus deixou ao livre e responsável arbítrio de cada um”. (b) No mesmo texto se especifica a seguir: “a Igreja tem, no entanto, o direito e o dever de pronunciar juízos morais sobre realidades temporais quando a fé ou a lei moral o exige”. Num artigo de Romana[4] sobre a formação da consciência em matérias morais e políticas, afirma-se também que São Josemaria “ensinou constantemente que os fiéis têm a obrigação moral de aceitar interna e externamente esses juízos doutrinais” (c). Um cristão, por isso, deverá formar a sua opinião nesses assuntos para fortalecer a sua fé e propor soluções específicas que não desfigurem a sua própria identidade.
No primeiro volume de cartas fundacionais, São Josemaria aborda o tema da atuação pública dos católicos em ambientes que perderam os valores cristãos.

São Josemaria queria estimular cada pessoa a usar sua própria inteligência e a tomar as suas próprias decisões. Costumava comentar que estava disposto a dar a vida para defender a liberdade dos outros. Importava-lhe também, e muito, que se exercesse a liberdade avaliando as opções adotadas. Expressou isso muitas vezes, por exemplo, em uma entrevista concedida em 1967, na qual indica: “Em questões temporais, ninguém pode pretender impor dogmas que não existem. Ante um problema concreto, qualquer que ele seja, a solução deve ser estudá-lo bem e, depois, atuar em consciência, com liberdade e com responsabilidade também pessoal”[5].
Artigo originalmente publicado no site www.opusdei.org/es-cl. 28.10.2022
[1] São Josemaria, Carta 9/01/1959, n.35.
[2] São Josemaria, Cartas (I), 3, n. 42.
[3] Documento da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a atuação dos católicos na vida política: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20021124_politica_po.html.
[4] Artigo sobre a formação da consciência em matérias morais e políticas segundo ensinamentos de São Josemaria.
[5] São Josemaria, Entrevistas, n. 77.-
Notas do olivereduc.
a. Em suma: a liberdade do Opus Dei é a mesma de todo fiel católico. Aqui entra um debate novo entre católicos: a escolha do mal menor. A questão passou da teoria para a prática. Vários defenderam que, tendo em vista a realidade brasileira, seria lícito votar no PT apesar de suas pautas anticristãs porque pior ainda seria o voto no lado conservador. Razão? O conservadorismo mundial, liderado por Trump, seria o mal maior no mundo ocidental. Discordo. Penso que não podemos comparar a reação conservadora brasileira com o norte-americano. Tema para outro artigo.
b. Em todas as questões estritamente temporais o católico tem o direito de opinar ou de aceitar ou não o que é proposto. A menos que, uma determinada aprovação de uma medida governamental na área do ensino, por exemplo, claramente viole direitos naturais da família.
c. Todo católico tem a obrigação moral de seguir as instruções e os documentos do magistério católico. Há dois exemplos claríssimos: a afirmação de que não se pode aceitar um programa comunista, pois essa ideologia é “intrinsecamente má” ou o apoio a programas abortistas de certos partidos políticos. Lembremos que não é necessário que o partido escreva ou declare que é abortista. O eleitor deve ter sagacidade quando ler que determinado partido ou políticos defendem a completa “autonomia da mulher sobre seu corpo” ou leis favoráveis “à interrupção da gravidez” e, finalmente quando o partido afirma que não é favorável, mas que defende “políticas públicas” sobre saúde. Como diz o ditado: ´”é tudo farinha do mesmo saco”.