VOCÊ É CHEIO DE NOVE-HORAS? (1)

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Não, não é um relojoeiro, rsrs. O hífen aí é imprescindível. ‘Nove horas’ são uma hora exata do dia e ‘nove-horas’ é um substantivo composto. Com hífen, podemos nos referir a um arbusto nativo das Guianas, de florezinhas amarelas, a ‹Turnera guianensis›. O nome é dado pelo seu habitual horário de floração. Imagine um canteiro cheio de nove-horas, rsrs.

Só que na expressão ‘cheio de nove-horas’, não se está falando da flor, muito menos do horário. Aí, ‘nove-horas’ significa ‘melindres’ ou ‘adornos’, a depender do contexto.

O cara que tira o tomate do hambúrguer, separa a borda da ‘pizza’, evita a gordura da picanha, não anda descalço, só faz o número dois em casa, não bebe água morna, não senta no chão, reclama do ar-condicionado, não come comida requentada, não encosta em animais, só dorme no absoluto escuro, não come fruta com mancha na casca… é um forte candidato a ser um ‘cheio de nove-horas’.

Essa é uma pequena lista de melindres, uma série de coisiquinhas que, para muita gente, não passa de frescura. Para qualificar quem se amola por pequenices – um cosquilhoso – não faltam adjetivadores. Quando o sujeito é muito fresco, dizemos uma porção de expressões sinônimas, que o cara é cheio: de cafangas, de caprichos, de coisa, de dedos, de efes e erres, de horas, de ípsilons, de luxo, de não me toques, de manias, de mas-mas, de mimimi, de nicas, de nhe-nhe-nhém, de nós pelas costas, de novidades, de partes, de titicas, de toque.

É fácil entender por que o indivíduo muito delicado, susceptível a se incomodar por detalhes, ganha esses qualificadores, mas o mistério certamente está nas nove-horas? Por que ‘nove-horas’? Por que ‘nove’ e não outro horário? Da manhã, da noite?

Uh, é hora de etimologia!

Primeiramente, vamos desmentir uma pseudoetimologia. Certa explicação afirma que, no início do século passado, os fiéis se arrumavam elegantemente para participar da missa das nove, nas manhãs de domingo. Como gente muito chique é normalmente muito cerimoniosa, apelidaram esse pessoal como ‘cheios de nove-horas’. Xi! Bobagem, invencionice.

A referência das nove horas, na verdade, vem do horário limite das visitas no século XIX. Sem luz elétrica, a sociedade acordava cedo e dormia cedo. Convencionou-se que, às 21h, já era de bom-tom encerrar as visitas e não vagar mais pelas ruas.

Às nove, havia uma espécie de toque de recolher implícito. Segundo o historiador potiguar Câmara Cascudo, no seu livro ‘Locuções tradicionais do Brasil’ (1970), “apenas os boêmios, notívagos impenitentes, teimavam em afrontar os perigos da noite, da polícia, dos ladrões e capoeiras esfaimados”.

Isso era mais enérgico na época da escravidão, quando os escravos que fossem pegos na rua após as 21h eram punidos com palmatória. Câmara Cascudo afirmou que, no Recife, cantava-se: “Cabeça-seca,/ são nove hora!/ Lá vem Rufino,/ com a palmatória!” Rufino José Correia de Almeida era subdelegado da polícia da freguesia da Boa Vista, um dos bairros mais importantes e movimentados do Recife na época.

Com o toque de recolher das nove, muita gente não só se policiava como também aporreava os demais. O cheio de nove-horas era considerado o sujeito cheio de regras, de censuras e de limites às alegrias alheias. Um xarope!

Olha, até que esse limite das nove, dez horas não é tão ruim. Gente, é um horário tão bom para se pensar em ir para a cama… Há um bando de arruaceiros frequentadores dum bar aqui perto de casa que gritam e escutam fanque proibidão na JBL até altas horas da matina. Estou tomando coragem para ir lá reclamar e, enfim, ser eu o cheio de nove-horas (ou seria ‘cheio de três-horas’?).

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Rafael Rigolon é biólogo, doutor em Ensino de Ciências e criador do projeto Nomes Científicos, com crônicas e curiosidades que conectam a biologia, o latim e as expressões populares da língua portuguesa

Nota: O título foi acrescentado pelo olivereduc.com

Fonte: Extraído do FB em 22 de setembro. @nomescientificos

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