A MORTE DA HISTÓRIA

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“O Estado de São Paulo”

Como alerta o historiador Niall Ferguson, algoritmos e IA estão turbinando a falsificação do passado, o que violenta a memória de que uma civilização precisa para construir seu futuro

Notícia de presente

Niall Fergunson

“O historiador precisa admitir: fracassei completamente.” A confissão do escocês Niall Ferguson, um dos mais importantes historiadores contemporâneos, num ensaio intitulado A morte da História, parte de um paradoxo perturbador: o Holocausto é um dos acontecimentos mais documentados da História, mas nada disso impediu que o negacionismo do Holocausto e o antissemitismo voltassem a seduzir jovens no ambiente digital, envolto em memes que transformam o horror em diversão.

O fracasso de que fala Ferguson precisa ser definido. Os historiadores continuam capazes de estabelecer o que aconteceu. A ruptura ocorre entre o conhecimento comprovado e o reconhecimento público. Um fato sobrevive nas fontes e, ainda assim, pode perder autoridade social, relevância moral e influência sobre os juízos políticos.

John Clark Levin

No ensaio, que pode ser lido no perfil de Ferguson no Substack (https://niallferguson.substack.com/p/the-death-of-history), ele e John-Clark Levin, pesquisador americano de IA, chamam esse fenômeno de “anti-História”. O negacionista tradicional adulterava números e simulava pesquisa, de modo que a fraude prestava homenagem involuntária ao ofício que pretendia desmoralizar: era preciso aparentar submissão às provas. Os niilistas digitais, protegidos pelo sarcasmo, dispensam essa disciplina. Negam o Holocausto num vídeo e o celebram no seguinte. A vítima vira objeto de escárnio, enquanto a atrocidade serve de entretenimento transgressor e o público se habitua a julgá-la indigna de inquietação moral. Uma sociedade pode conservar os meios de conhecer o passado e ainda assim perder a disposição de reconhecê-lo.

As mídias algorítmicas deram escala inédita a essa inclinação. Seus sistemas premiam intensidade e permanência: curiosidade mórbida, repulsa e adesão contam igualmente como engajamento. A inteligência artificial, por sua vez, fabrica em série imagens, vozes, testemunhas e identidades, enquanto exércitos de robôs simulam multidões e dão a ideias marginais aparência de consenso.

Essa inundação do falso asfixia a confiança no verdadeiro. Tudo passa a ser considerado potencialmente falso, mesmo o que é autêntico. A mentira nem precisa mais ser coerente: basta provocar desorientação suficiente para que cada grupo escolha sua realidade conveniente.

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A História procura estabelecer o que aconteceu; o jornalismo, o que está acontecendo. Já a política precisa decidir o que fazer. A erosão da memória e a fabricação do presente mutilam a realidade comum necessária para que uma democracia escolha seu futuro.

Edmund Burke descreveu a sociedade como “uma parceria entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão”. A “tradição”, segundo G.K. Chesterton, “significa dar votos à mais obscura de todas as classes: nossos antepassados. É a democracia dos mortos”. A anti-História frauda esses votos ao pôr palavras na boca dos mortos, apagar experiências inconvenientes e conferir à geração presente a tirania do tempo.

Assim, a esfera digital vai adquirindo os contornos de uma nova Babel: todos falam, poucos se entendem e já nem sempre sabemos quantas vozes são humanas. Os códigos que tornam o desacordo inteligível – autoria, procedência, prova e responsabilidade – são vandalizados. A democracia abriga revisões históricas, sátiras e desafios aos consensos, mas sua vitalidade depende de meios para distinguir contestação intelectual de falsificação deliberada.

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A resposta liberal dispensa autoridades encarregadas de decretar a verdade. Passa pela preservação dos registros, pela procedência verificável de conteúdos sintéticos, pela transparência algorítmica e pelo combate a redes clandestinas que falsificam apoio popular. Depende, sobretudo, de mediadores capazes de confrontar erros e de cidadãos conscientes do ambiente informacional que ajudam a formar.

Ferguson tem razão: a refutação factual já não basta contra a propaganda concebida para provocar escárnio e pertencimento. Mas se sua confissão de fracasso é uma concessão excessiva aos anti-historiadores, vale como um alerta. Quanto mais fácil fabricar o passado, maior a necessidade de preservar seus vestígios, ensinar como os fatos são conhecidos e transmitir por que importam. Uma sociedade só consegue construir o futuro se conservar memória suficiente para julgar o presente.

Fonte: https://www.estadao.com.br/opiniao/a-morte-da-historia/?srsltid=AfmBOopQ1prKGIUnWVGICCaPU37jSDAK2Nhv-omlgF2_R8GiBgSgyX4s – 01/08/2026.

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