ENTRE A CRUZ E O MAR: A JORNADA ESPIRITUAL DOS POVOS IBÉRICOS

O belo artigo de Vinicius Feres Rocha, que hoje publicamos, destaca as qualidades dos povos ibéricos ao conquistar a América. Não é uma visão romântica, como podemos ver quando apresenta defeitos dos homens reais que aqui chegaram. Ele simplesmente destaca, como é comum em sua obra, muita coisa bela que alguns historiadores fingem não ter existido ou, pior ainda, quando só destacam misérias.

Tomamos a liberdade de inserir subtítulos no artigo. (V.O. Olivereduc).

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Vinicius Feres Rocha

Rasgando os oceanos em busca do desconhecido

No limiar do século XVI, quando a Europa começava a se desviar das grandes certezas medievais e a lançar-se nas inquietações de um mundo novo, Portugal e Espanha assumiram uma missão que foi, ao mesmo tempo, audaciosa e fiel. Enquanto outros povos se digladiavam por pequenos tronos, por fronteiras mínimas e por poder efêmero, os ibéricos rasgavam os oceanos em busca do desconhecido — não apenas como aventureiros, mas como cruzados e apóstolos, portadores de uma fé universal e eterna.

Esse duplo caráter — de inovação técnica e fidelidade espiritual — define o pioneirismo ibérico. Era um gesto simultaneamente moderno e medieval. A bússola, o astrolábio, a caravela não se separavam da cruz, do rosário e do ideal apostólico. Mais do que desbravadores, os portugueses e espanhóis se sabiam investidos de um mandato superior: levar ao mundo a mensagem cristã, cumprir o mandato deixado pelo Salvador aos seus discípulos — “Ide e ensinai todas as nações” — e fazê-lo sem distinção de raças, línguas ou civilizações. Em tempos de crescente ceticismo e de fermentos individualistas, Portugal e Espanha erguiam-se como bastiões do ideal teocêntrico, fiéis à missão de que a fé não é um dom para poucos, mas uma herança oferecida à totalidade da humanidade.

Sonhos de glória ou sede de poder? Perigos?

O Tratado de Tordesilhas, ao dividir o mundo entre Portugal e Espanha, não pode ser visto apenas como um gesto de imperialismo ou ganância territorial, embora a ambição estivesse, sim, presente — como sempre está quando se trata de grandes empreendimentos humanos. Houve, claro, os que visavam as riquezas dos trópicos, os metais preciosos, as especiarias, as rotas comerciais. Muitos cruzaram o oceano guiados por sonhos de glória ou sede de poder. Mas reduzir todo o movimento expansionista ibérico a essa dimensão é injusto e historicamente limitado. Por detrás das caravelas e das bandeiras, havia também homens que carregavam uma missão mais alta. Homens que aceitavam perigos reais — doenças, fome, solidão, violência — por um ideal que não se media em ouro, mas em salvação.

São esses os heróis quase anônimos que sustentam a alma da epopeia ibérica. Gente como o padre Manuel da Nóbrega, que deixou o conforto de sua formação europeia para evangelizar os povos do Brasil, ou como José de Anchieta, que enfrentou o isolamento, a enfermidade e as adversidades da selva para ensinar o nome de Cristo aos nativos. Esses não buscaram riqueza, nem prestígio. Tinham um propósito que nascia da fé e se realizava no sacrifício. Foram apóstolos autênticos de um mundo novo e muitas vezes hostil, em que a espada e a cruz caminhavam juntas, mas nem sempre com os mesmos propósitos. Enquanto uns dominavam, outros curavam. Enquanto uns saqueavam, outros ensinavam. E é nesse contraste que se revela a complexidade — e a grandeza — da missão ibérica: entre o peso das ambições humanas e a luz silenciosa dos que serviram com alma.

As dificuldades que os navegadores ibéricos enfrentaram, os riscos imensos de travessias sem mapa certo, os oceanos desconhecidos, as tempestades imprevistas e os longos meses sem ver terra firme não se explicam apenas por bravura ou espírito aventureiro. Havia neles algo mais: uma fé moldada por séculos de um imaginário teocêntrico, um senso de missão que superava os limites do humano e do material. Era essa alma medieval, impregnada de valores cristãos, que lhes dava a firmeza necessária para seguir adiante quando tudo era incerteza. E se é verdade que havia ganância entre alguns, é ainda mais verdadeiro que muitos partiram com o desejo sincero de servir a algo maior que si mesmos.

O segredo da epopeia ibérica

Num tempo em que a Europa começava a se fechar sobre suas disputas internas e seus interesses particulares — Inglaterra, por exemplo, ainda retida em seus próprios conflitos dinásticos e sem se lançar ao mar senão tardiamente, e já com um espírito bem mais pragmático e comercial — Portugal e Espanha olhavam para além do horizonte com uma ousadia que unia técnica e espiritualidade. O segredo dessa vanguarda não estava apenas na cartografia ou na construção naval, mas na força cultural e religiosa que animava esses povos. Foi a permanência dos valores da Idade Teocêntrica — a crença em um Deus que age na História, e que chama todos os povos à salvação — que ofereceu a coragem necessária para assumir os riscos das descobertas.

Não se pode esquecer o papel extraordinário dos missionários, sobretudo dos jesuítas, que com inteligência, cultura e disciplina, ergueram escolas, traduziram línguas, mediaram conflitos e catequizaram com paciência. Muitos deles, como José de Anchieta ou Antônio Vieira, não apenas evangelizaram, mas defenderam os povos nativos dos abusos de outros colonos. Foram intelectuais e santos, homens de letras e de sacrifício. Ao lado deles, houve também astrônomos, botânicos, matemáticos e cronistas que buscaram compreender os novos mundos em toda a sua complexidade. Esse esforço conjunto, que uniu ciência e fé, ação e contemplação, não pode ser ignorado na leitura das grandes navegações.

Não houve erros?

É claro que houve excessos, como em toda obra humana. Houve violência, houve abusos, houve erros. Mas seria um erro ainda maior permitir que esses desvios obscurecessem o todo. A colonização ibérica não foi um processo puramente predatório; foi também — e em muitos casos principalmente — uma tentativa séria, mesmo que imperfeita, de integração e elevação espiritual. Os relatos que chegaram da época não são apenas de guerras e conquistas, mas de batismos, construções de igrejas, alfabetizações, convívios culturais. Se houve domínio, houve também doação. E se houve imposição, houve também comunhão.

O legado de Portugal e Espanha

Por isso, o legado maior de Portugal e Espanha no início da modernidade não é apenas geográfico ou econômico — é moral e espiritual. Foram os primeiros a ousar com grandeza. Os primeiros a colocar a cruz e o altar ao lado do leme e da vela. Sua missão apontava para mais do que rotas e lucros: apontava para uma ideia de humanidade unida por algo que ultrapassa a matéria. E é aí, justamente aí, que se revela a nobreza dessa aventura: um gesto profundamente humano, mas animado por uma aspiração divina. Foram, com todas as contradições do mundo real, os cruzados e apóstolos dos novos tempos.

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

(Fernando Pessoa)

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Vinícius Féres Rocha é graduado em Direito, tem como profissão a advocacia e tem se dedicado, especialmente, ao estudo da história e da filosofia da Igreja na Idade Média

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www.instagram.com/historiaetradicao

www.youtube.com/@natrilhadahistoria

Referências:

-História de Portugal, João Ameal, Editora Centro Dom Bosco

-Portugal – a História de uma Nação, Henry Morse Stephens, Editora Alma de Livros

-O Império Marítimo Português, C. R. Boxer, Edições 70

-História da Europa, João Ameal, Volume II, Editora Centro Dom Bosco

-História do Brasil, Pedro Calmon, Volume I, Editora Kirion

-História do Brasil, Robert Southey, Volume I, Editora do Senado Federal

¬-Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas, Synesio Sampaio Goes Filho, Editora Martins Fontes

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