
Há um momento em que os pais atravessam uma espécie de decepção: a percepção de que o filho real não corresponde totalmente ao filho idealizado. Frases como “a sua filha não foi honesta” ou “o seu filho foi o provocador” podem variar, mas o impacto é semelhante. Mesmo quando se trata de erros pequenos — uma mentira, uma exclusão ou uma atitude cruel — algo se nos pais se quebra internamente. O filho não é um “monstro”, mas deixa de ser o “anjo” imaginado.

O amor leva os pais a criar uma imagem ideal do filho: justo, generoso, corajoso. Durante a infância, essa visão suaviza os defeitos, interpretando-os de forma positiva. No entanto, com a chegada da pré-adolescência, a dimensão moral torna-se mais clara: já não são apenas atitudes inocentes, mas escolhas que afetam os outros.
Imaginemos um pai que, após falar com o professor, descobre que o filho não foi vítima de um mal-entendido, mas sim o responsável por uma mentira que prejudicou um colega. Nesse momento, mais do que raiva, surge uma sensação de estranheza: “quem é este filho?”. O “menino doce” dá lugar a alguém capaz de ferir intencionalmente, sendo esse o duelo mais difícil: aceitar que o próprio filho pode magoar os outros de forma consciente.
Dor pelo filho e pela ingenuidade dos pais

Surge então um duplo sofrimento: pelo filho e pela própria ingenuidade dos pais. No fundo, não é tanto uma desilusão com o filho, mas com a imagem idealizada que os pais criaram. O que dói é ver cair essa visão perfeita. No entanto, educar exige realismo: os filhos não precisam de pais fascinados pelo encanto, mas de adultos capazes de encarar a verdade com equilíbrio. Aceitar que o filho tem falhas não é falta de amor, mas um ato de humildade. O papel dos pais não é defendê-lo sempre, mas ajudá-lo a assumir responsabilidades. Negar os erros pode parecer protetor, mas acaba por confundir, pois transmite a ideia de que a aparência vale mais do que o comportamento.
Sem visão crítica não há reflexão, e sem reflexão não há mudança.
A diferença entre o filho idealizado e o real costuma tornar-se evidente na escola, que funciona como o primeiro espelho social, sem o filtro do afeto familiar. É aí que a criança deixa de ser o centro e passa a ser apenas mais um entre os outros, e onde os seus erros ganham dimensão pública. Por isso, quando a escola aponta uma falha, não pretende atacar a família, mas mostrar uma realidade que o amor dos pais tende a suavizar.
Na atual cultura de superproteção, a correção é muitas vezes vista como agressão. No entanto, proteger não é evitar todo o desconforto, mas ajudar a criança a lidar com ele. Perceber o erro não deve ser evitado, pois se trata de uma oportunidade essencial de aprendizagem. Se os pais “escondem” a realidade para evitar sofrimento, impedem o filho de compreender as consequências dos seus atos. Sem esse desconforto, não há reflexão nem crescimento.
Um adolescente que burla dos outros não está condenado a ser cruel, mas precisa entender o impacto das suas ações. Uma criança que cola não está definida pela desonestidade, mas precisa aprender que a verdade é mais importante do que o resultado. O essencial não é a perfeição, mas o que se aprende após o erro.
O erro é parte do processo de aprendizagem
A filosofia moral lembra-nos que as virtudes não surgem espontaneamente, mas aprendem-se dentro de práticas e comunidades. Como explica Alasdair MacIntyre, ninguém se torna justo ou corajoso apenas por inclinação natural; o carácter forma-se através de hábitos e de padrões externos que orientam o comportamento. Assim, o erro não é algo estranho, mas parte do processo de aprendizagem. O filho não é “bom por natureza” nem está perdido por falhar: está em formação.
Esse desenvolvimento não acontece isoladamente. Família e escola fazem parte da mesma “comunidade moral”. Estudos de Diana Baumrind mostram que os filhos se tornam mais autônomos e responsáveis quando crescem em ambientes que equilibram afeto e exigência. Não basta amar nem apenas impor regras: o essencial é a coerência entre ambos.
Família e escola devem atuar em concordância

Quando a escola corrige um comportamento e a família o desvaloriza, a mensagem torna-se confusa. Mas quando ambos atuam com clareza e equilíbrio, o jovem compreende que as suas ações têm consequências e que pode aprender com elas. Se o erro é tratado com realismo e serenidade, transmite-se ao filho uma ideia essencial: o seu valor não depende do seu comportamento imediato. Essa é a verdadeira forma de amor incondicional.
Estudos sobre o ambiente escolar mostram que a colaboração entre famílias e professores reduz o bullying e aumenta o sentimento de pertença. Essa coerência não é apenas organizacional: é fundamental para a formação do jovem. Se o aluno percebe que os adultos se contradizem, aprende que as regras são relativas e que pode evitar responsabilidades. Mas, se há consistência entre família e escola, entende que os limites não são arbitrariedades, mas formas de cuidado e orientação.
O limite como prova do amor incondicional

Quando um filho erra e os pais não negam nem exageram a situação, mas a enfrentam com serenidade e continuam a amá-lo, transmite uma verdade fundamental: o seu valor não depende do seu comportamento. Esse é o verdadeiro amor incondicional. O filho não é amado por ser sempre correto, mas por ser quem é. E é precisamente por amor que os pais o corrigem, pois sabem que a felicidade não é compatível com a injustiça, a mentira ou o desrespeito pelos outros. Corrigir não significa retirar amor, mas exercê-lo de forma exigente.
Aprender a lidar com os erros sem perder o afeto é profundamente formador. A criança percebe que pode reconhecer falhas sem perder o seu lugar e entende que o amor não desaparece com o erro, mas também não o ignora. Assim, o “pequeno duelo” dos pais — aceitar que o filho real não corresponde ao idealizado — não é uma derrota, mas o início de uma educação mais verdadeira. Só ao abandonar a ilusão de perfeição é possível acompanhar o crescimento moral do filho, que, com as suas imperfeições, é mais educável do que a versão idealizada.
Resumo do artigo “El duelo de abrazar al hijo real”, de Maria Paz Montero Orphanopoulos, em ACEPRENSA https://www.aceprensa.com/familia/el-duelo-de-abrazar-al-hijo-real/. Resumo elaborado por Ari Esteves para o site www.ariesteves.com.br