NIVALDO CORDEIRO, OLAVO DE CARVALHO E AS CRÍTICAS À NOVA ENCÍCLICA DO PAPA
Valter de Oliveira
É muito difícil para um católico ver uma encíclica da Santa Sé criticada por quem não entende a Santa Igreja. Mais difícil ainda quando a crítica vem de quem tem se notabilizado por uma grande luta em defesa dos grandes valores da civilização ocidental cristã. É o caso do filósofo Olavo de Carvalho e do economista Nivaldo Cordeiro cujos artigos estão em nossa postagem de hoje.
1. Considerações preliminares.
No último dia 8 recebi um e-mail de um grande amigo - tendo em anexo o artigo de Nivaldo Cordeiro- pedindo minha opinião sobre suas críticas à encíclica Caritas in Veritate. Claro está que é algo muitíssimo delicado ver um católico praticante fazer críticas a um documento pontifício. Afinal, neste temos não só o pensamento do Papa, mas também o trabalho de toda uma equipe de especialistas que ajudaram o pontífice por meses ou anos em sua elaboração.
Ontem, 11 de julho, li outro artigo com críticas a Bento XVI, escrito por Olavo de Carvalho A diferença em relação ao primeiro é que ele viu no texto do Papa algo não acentuado no primeiro artigo: a proclamação de valores gerais que, conforme ele, todos nós temos que dar o mais decidido apoio. A semelhança está em dizer que Sua Santidade teria errado no diagnóstico econômico e nas soluções propostas. E a estas teríamos que rejeitar...
Pessoas com pouco conhecimento da doutrina da Igreja podem, só por isso, recriminar de antemão, digamos assim, a temeridade desses dois pensadores. Os dois autores (entre outros que devem ter feito leituras semelhantes) poderiam ser atacados até por dividir os católicos em um momento em que, mais do que nunca, é necessária a união entre os defensores dos grandes valores de nossa civilização. Divisão que Olavo de Carvalho, no final de seu artigo, enfatiza claramente que é um ponto que devemos veementemente evitar.
Queremos aproveitar para relembrar que nós, católicos, temos a obrigação moral de aceitar a doutrina católica em tudo o que se refere à fé e à moral nas condições estabelecidas pela Igreja. E estas são mais "liberais" do que se imagina em tudo aquilo que não seja dogma ou verdades de fé.
O Papa e os bispos não são infalíveis em matéria de política, economia ou História. Neste sentido os críticos da Encíclica têm espaço para expor suas apreensões e discordâncias. Quando são expostas de modo adequado não devem ser motivo de escândalo para o católico bem informado.
Os artigos de Nivaldo Cordeiro e Olavo de Carvalho são duros, mas penso que eles devem ser discutidos. O Papa nos pede que procuremos a verdade. Não será jogando discordâncias em baixo do tapete que contribuiremos para que ela seja encontrada e amada. O católico tem fé na indefectibilidade da Igreja e tem confiança que, apesar de todas as tormentas, Ela não será tragada por nenhuma forma de ideologia.
Finalmente lembremos que, em princípio, os católicos têm a obrigação de aceitar o ensinamento do chamado magistério ordinário. Até que ponto as sugestões práticas da encíclica obrigam aos fiéis em consciência, especialmente nos casos citados nos dois artigos, deixo para que seja discutido por especialistas. Caso encontre artigos abordando estes pontos concretos eu os colocarei no site da Olivereduc.
Dito isto passemos a discutir alguns pontos dos dois artigos.
Em primeiro lugar quero adiantar que não é minha intenção polemizar com ambos. O que afirmam, ao discordar do Papa, são coisas discutíveis, mas meu objetivo é esclarecer alguns pontos que possam ajudar a todos aqueles que rejeitam o Leviatan relativista moderno a lutar por uma sociedade mais justa e solidária em conformidade com a vontade do Santo Padre.
2. Nivaldo Cordeiro e a Justiça Social
Não concordo com tudo o que diz Nivaldo Cordeiro. Talvez ele tenha dado uma interpretação muito estrita a certas afirmações do Papa que podem ser entendidas de forma diferente. Mas, aqui neste momento, quero tratar da expressão justiça social, usada pelo Papa na encíclica e que desagradou profundamente o articulista. Eis suas palavras:
"Para meu grande espanto foi usado no texto a expressão "justiça social", esse pleonasmo que está na boca de todos os partidos de esquerda do mundo. Não creio que Sua Santidade ignore isso. Por que o fez? Não faço idéia. Sei que a burocracia da Igreja, especialmente aquela fortalecida pelo Concílio Vaticano II, inoculou no texto esse vírus trágico da verborragia dos militantes políticos que fazem do Foro Social Mundial sua caixa de ressonância."
Ora, aqui há um engano: Justiça Social é uma expressão corrente da Doutrina Social da Igreja e foi usada bem antes do aparecimento do politicamente correto. Ao ler a crítica de Nivaldo tentei recordar-me em quais encíclicas ela aparece. Encontrei-a, na Divini Redemptoris, de 1931, escrita por Pio XI exatamente para apontar os males do comunismo. No ponto 51 podemos ler:
"Efetivamente, além da justiça comutativa, há a justiça social que impõe, também, deveres a que nem patrões nem operários se podem furtar. E é precisamente próprio da justiça social exigir dos indivíduos quanto é necessário ao bem comum" (...)
Para não ficar só nisso consultei alguns livros. Em um deles encontrei que "ao que parece, o neo-escolástico Luis Taparelli (+ 1862) é o pai da expressão "Justiça Social" empregada em sentido pouco claro como justiça entre pessoa e pessoa" (...). Chegou a ser considerada "fruto venenoso do modernismo". Depois, "apesar de tantas suspeitas, o termo foi vingando mais e mais na literatura católica até, finalmente, ser acolhido oficialmente pela cúria romana, na época de Pio X". (1)
Como se vê, o uso da expressão nada tem a ver com a capitulação diante do politicamente correto. E nem de longe tem o significado que lhe dá o Foro Social Mundial.
Que a expressão seja usada pela esquerda desvirtuando os ensinamentos da Igreja não é novidade e nem implica que usá-la seja errado. Ou não é verdade que expressões perfeitamente corretas como liberdade, democracia, justiça, igualdade, direitos humanos e tantos outros são apropriados e deturpados pelas ideologias que infestam a sociedade? Certamente quando Nivaldo Cordeiro defende a liberdade não é aquela apregoada pela esquerda.
Também poderíamos discutir a questão do desenvolvimento. Fica para outra ocasião já que este artigo está se estendendo em demasia.
3. Olavo de Carvalho
Como dissemos o renomado filósofo, que tem se empenhado fortemente em mostrar todos os males da cultura da morte, discorda do diagnóstico da crise mundial feito pelo Papa, mas quer que demos apoio total aos princípios e valores gerais apresentados na encíclica.
Por outro lado afirma que "Os beatos de sempre vão assegurar-nos, é claro, que a nova Encíclica não é um manifesto de apoio ao governo global".
Pessoalmente sou contra um governo mundial liderado pela ONU. Por todos os males que daí viriam já que, de fato, os grandes organismos internacionais e ONGs estão cada vez mais tentando impor às nações uma visão do mundo e da sociedade diametralmente opostos aos princípios cristãos.
Outra coisa é discutir, em tese, se a globalização não exige dos atores internacionais regulamentações globais que possam melhorar a sociedade e fazer com que os homens possam viver em justiça e solidariedade, a partir da verdade.
A Doutrina Social da Igreja nunca defendeu um papel do Estado semelhante àquele proposto pelo Liberalismo. Basta ler as encíclicas sociais.
A grande questão é como intervir. É achar o ponto de equilíbrio. Questão que, penso eu, o homem moderno não conseguirá ter.
Exatamente porque não tem as qualidades necessárias, porque está alheio a Deus, longe de tudo aquilo que é desejado e exposto por Bento XVI.
Por outro lado, claro está que do ponto de vista católico regulamentações internacionais (aquelas que se provem necessárias); ou um hipotético governo mundial, não podem ferir os princípios fundamentais da doutrina social ensinados pela Igreja. O Papa certamente não aprova nenhum poder regulador no sentido de criar uma espécie de ditadura mundial.
Assim sendo o que é preciso exigir é que todas essas autoridades e instituições, incluindo a ONU, comprometam-se formalmente com a aplicação dos valores gerais propostos pela Encíclica. Eles o farão?
Creio que os católicos têm imensa dificuldade em aceitar a idéia que Bento XVI tenha cedido ao politicamente correto. O normal será a rejeição a tal idéia. Vai contra tudo aquilo que ele tem feito em matéria doutrinal, contra todo em seu empenho em que o homem moderno entenda que não se pode construir uma sociedade justa sem Deus.
Olavo de Carvalho, Nivaldo Cordeiro e muitos outros pensadores são homens de grande erudição e, acima de tudo, pessoas empenhadas, repito, em defender a liberdade e a justiça. Por que não oferecer a Bento XVI sugestões práticas de como realizar a cristianização do globalismo?
O Santo Padre, sem dúvida, como muitas vezes acontece após a publicação de um documento da Igreja, não deixará de responder às suas indagações.
1) Hoeffner, Joseph Cardeal. Doutrina Social Cristã, Edições Loyola, SP, 1986, 8ª edição, p.52,53).
Durante a semana pretendemos colocar o texto completo no site na seção igreja exatamente com o título "Justiça Social"