OLIVER EMPREENDIMENTOS EDUCACIONAIS


IDADE MÉDIA

PRECONCEITOS CONTRA A IDADE MÉDIA

 

Valter de Oliveira

27/01/2010


No início do ano letivo costumo dar a meus alunos um teste para ter uma noção do que conhecem de História. O resultado é sempre interessante. Dá para se ver claramente os preconceitos e os chavões ideológicos que lhes foram inculcados durante anos. Em parte pela mídia, em parte pelo sistema escolar e pelas lacunas culturais de nossa sociedade. Exemplo disso é o que pensam sobre a Idade Média, esse rico período histórico que está nas raízes de nossa civilização.

Muitos ainda acreditam que:

1. A Idade Média foi uma época de trevas.

2. Em grande parte por culpa da Igreja. O Clero, aliado à nobreza, explorava o povo e não estava interessada em dar ensino às camadas populares.

3. A Igreja também teria sido um obstáculo ao progresso da ciência. Exemplo disso seria o ensinamento dos clérigos afirmando que a Terra era plana.

4. A discriminação contra a mulher era tão forte que se duvidava que ela tivesse alma...

5. Os nobres tinham direito à "prima nocte". "De acordo com a lenda, as noivas pagariam um tributo ao senhor com o seu desvirginamento na noite de núpcias."


Claro está que esse monte de bobagens não é defendido por nenhum historiador sério. Há muito tempo. Nem mesmo por professores de História com um pouco de familiaridade com bons livros.

Aqui fica uma questão: Por que há tanto preconceito contra a Idade Média?

O historiador da USP, Hilário Torloni levanta a questão e a responde em sua obra "A Idade Média, o nascimento do Ocidente". (1) E começa explicando o preconceito em relação ao nome do período. Os destaques em itálico são meus.

(...) "De fato, falarmos em Idade Antiga ou Média representa uma rotulação a posteriori, uma satisfação da necessidade de se dar nome aos momentos passados. No caso do que chamamos Idade Média, foi o século XVI que elaborou tal conceito. Ou melhor, tal preconceito, pois o termo expressava um desprezo indisfarçado pelos séculos localizados entre a Antiguidade Clássica e o próprio século XVI".

Depois de explicar como várias personagens da Renascença (Petrarca, o bispo Giovanni Andréa, Vasari, Rafael, etc) contribuíram  para reforçar o preconceito contra a Idade Média que passou a ser vista "como uma interrupção no progresso humano" (p.17,18), Torloni enumera outras fontes do preconceito contra o mundo medieval:


1. "Os protestantes criticavam-no como época de supremacia da Igreja Católica.

2. "Os homens ligados às poderosas monarquias absolutistas lamentavam aquele período de reis fracos, de fragmentação política.

3. "Os burgueses capitalistas desprezavam tais séculos de limitada atividade comercial

4."Os intelectuais racionalistas deploravam aquela cultura muito ligada a valores espirituais. (p.18)

 

Eu acrescentaria uma quinta fonte de preconceito: a ideologia marxista, o ateísmo, os totalitarismos. Em suma, todos aqueles que querem destruir até às raízes a civilização criada pelos ideais cristãos. Ideologias que negam que a natureza humana seja sempre a mesma, que há valores e verdades objetivos e universais, que não aceitam Deus nem a influência cristã sobre a sociedade. São hoje os grandes propagadores e defensores da cultura da morte.

Comentário final sobre os preconceitos. Vejamos só um ponto: o que diz que se afirmava que a mulher não tem alma. (2)

Aqui não é nem necessário apelar para os historiadores. Basta usar um pouco de lógica, um pingo de bom senso.

Se a Igreja ensinava que as mulheres não tinham alma por que as batizava? Para que criou conventos? Por que canonizou tantas delas?

Será que na Idade Média ninguém lia ou ouvia o Magnificat? Eis as palavras da Virgem ao anjo na Anunciação: "Minha alma glorifica o Senhor. E o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador."

Como se vê, haja preconceito! E haja ignorância!

 

 

Notas

1. JÚNIOR, Hilário Franco. A IDADE MÉDIA. O NASCIMENTO DO OCIDENTE.

São Paulo, Brasiliense, 1ª edição. 1986

2. Falaremos dos outros preconceitos em próximos artigos.


 



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