EDUCAÇÃO (1)

VIVE LA DIFFERENCE! A EDUCAÇÃO ESPECIALIZADA POR GÊNERO, E O DIREITO DE ESCOLHER.

 

Evandro Faustino

16/01/2010

 

 


Cada pessoa nasce homem ou mulher, com ritmos diferentes, com sensibilidades diferentes, e com reações diferentes. Isso é verdadeiro, belo e bom, sendo celebrado pelos franceses com a expressão definitiva: : "vive la difference!"  Mais modernamente essas diferenças foram jocosa e finamente estudadas no Best-seller "Homens são de Marte, mulheres são de Venus"[1].  Todos sabemos disso: Homens e mulheres não são iguais, mas complementares, com modos diversos de viver sua idêntica dignidade pessoal.  Uma conseqüência disso é que a boa escola deve estar atenta a essas diferenças, e proporcionar a cada aluna ou aluno os melhores meios para desenvolver sua personalidade, o que significa crescer em sua feminilidade, ou em sua masculinidade.


Para atender às diferenças pessoais entre meninos e meninas, a escola não precisa necessariamente ser de educação separada. Mas a verdade é que na escola mista isso é mais difícil, porque uma classe mista apresenta variáveis emocionais, comportamentais e evolutivas muito mais acentuadas do que uma outra exclusiva de meninas ou de meninos.


A implantação generalizada das escolas mistas foi acontecendo a partir dos anos 60.  Os motivos alegados eram econômicos, e a demanda crescente de novas vagas. Mas havia também uma vivência, um sentir de que as escolas de educação separada eram coisa do passado, e que o moderno seriam as escolas mistas. Um feminismo nascente apoiava entusiasticamente essa mudança alegando que dessa forma se chegaria mais rapidamente à igualdade de direitos entre homens e mulheres. E como era a moda, assim se fez, sem nenhum estudo mais sério, nem trabalhos conclusivos que indicassem ser o ensino misto a melhor opção educativa. O politicamente correto passou adiante da ciência e da investigação cientifica.   Em alguns lugares os dois sistemas educativos conviveram por vários anos. Em outros, como no Brasil, a educação separada praticamente deixou de existir, afogada pela onda da modernice novidadeira.  Passaram-se cinqüenta anos, e agora já existe um recuo suficiente para uma comparação, e para se avaliar os resultados e os aspectos positivos e negativos que cada sistema tem para oferecer.


Muito se tem escrito sobre esse assunto, mas pouquíssimo disso se publicou no Brasil. Quero de alguma forma contribuir para a reflexão sobre o tema, oferecendo alguns dados para pensarmos sobre a conveniência, a oportunidade e a legitimidade da educação especializada por gênero, que acredito ser o modelo educativo mais adequado para o bom estímulo da  diversidade entre o homem e a mulher, e o melhor desenvolvimento da personalidade de ambos. É obvio que parto do princípio de que alunas e alunos tem direito a igualdade de oportunidades, e direito de cursar os mesmos conteúdos docentes, com meios similares, e exigência acadêmica idêntica.  Apenas afirmo que a educação deve além disso levar em conta a diversidade pessoal, sem qualquer discriminação ou injustiça.  E afirmo também que os pais devem ter o direito de escolher o tipo de escola que desejam para seus filhos, e que o poder público deve possibilitar essa livre escolha.


O resultado de muitas pesquisas demonstra que a escola especializada facilita o processo de aprendizagem, leva a um melhor desenvolvimento da personalidade dos alunos, e atinge melhores resultados acadêmicos.  Algumas pesquisas ainda comprovam que os alunos e alunas das escolas especializadas são muito mais respeitosos para os colegas do outro sexo que os das escolas mistas.   E a amarga experiência dos últimos cinqüenta anos mostra claramente que a escola mista não conseguiu a pretensa igualdade de oportunidades que era um de seus objetivos[2].  Alguns movimentos feministas inclusive reconsideraram sua posição a respeito e agora afirmam que a melhor forma de garantir os direitos da mulher é lutar pela escola especializada e não pela mista.


Três razões em favor da educação especializada por gênero.


1-     Maior desenvolvimento da personalidade das meninas e dos meninos.


As meninas amadurecem biológica e psiquicamente antes que os meninos, e por isso, nas classes mistas, especialmente nas idades entre 11 e 15 anos, elas têm um rendimento superior. Isso prejudica os meninos, e a comparação constante entre eles e elas provoca neles um comportamento inibitório, que habitualmente conduz a uma resposta de frustração, ansiedade, e até mesmo agressividade. Os problemas educativos entre os meninos nessa idade atingiram tal nível que psiquiatras passaram a falar de um conceito chamado por eles de "vulnerabilidade masculina". A bibliografia a esse respeito é muito vasta[3].


Essas dificuldades nas classes mistas talvez se expliquem também pelo fato de que as atitudes  e o comportamento espontâneo das meninas apresentam "vantagens" do ponto de vista dos professores. Elas costumam ser mais tranqüilas, mais disciplinadas, mais ordenadas que seus colegas.  As comparações são inevitáveis, e os meninos são habitualmente rotulados de violentos, agressivos, inadaptados ou desmotivados.  E quando os professores se esforçam por ajudar os meninos,  as meninas acabam recebendo menos atenção do que mereceriam.  Uma associação norte-americana, depois de fazer pesquisa com 1331 meninas, concluiu que nas classes mistas elas recebem uma atenção sensivelmente menor por parte dos professores, e se sentem muito menos estimuladas a atingir seus objetivos[4].


Alem disso, as pesquisas demonstraram que as mulheres adultas que foram educadas em escolas de educação separada tem uma atitude menos estereotipada em relação aos comportamentos de gênero, e um auto-conceito mais elevado.  Também se constatou que a presença constante dos meninos na classe dificulta a amizade entre as meninas.  Finalmente, ficou claro que a capacidade de liderança, a autoconfiança, as relações com as colegas e com os professores melhoram significativamente nas escolas exclusivamente femininas[5].


2-     Melhoria do processo de socialização.


Costumava-se dizer que a educação mista teria a vantagem de estimular o processo de socialização entre os sexos, e que a presença das meninas tornaria os meninos mais educados e gentis.  Mas os resultados práticos demonstram que a conduta dos meninos  nas classes mistas costuma ser mais agressiva e egoísta que nas classes diferenciadas,  e se verificou que, no geral, nas escolas mistas os meninos entendem melhor as meninas, mas lhes perdem o respeito[6].  Surpreendentemente as pesquisas demonstraram que nas escolas mistas os estereótipos de gênero são reforçados, e que nas escolas especializadas apresentam vantagens na hora de superar alguns desses estereótipos, pelo menos no que se refere à escolha de disciplinas tradicionalmente consideradas masculinas ou femininas. Numa escola especializada, as meninas se sentem mais à vontade para escolher Matemática, ou Ciências, ou Esporte, da mesma forma que os meninos para escolher Arte, Literatura, ou um idioma estrangeiro.


3-     Incremento da eficácia acadêmica.


Muitas pesquisas foram e continuam sendo realizadas sobre a eficácia acadêmica da escola mista em comparação com a especializada, e os resultados costumam ser sempre favoráveis a estas últimas.  Em países onde os dois sistemas coexistem, mesmo quando os colégios de educação separada são apenas uma minoria, são sempre eles os mais bem classificados nos rankings. No Brasil, onde as leis e os preconceitos praticamente baniram as escolas não-mistas, o primeiro lugar é sempre reservado a um dos únicos colégios especializados que ainda subsistem: o Colégio São Bento, no Rio de Janeiro[7].


Uma opção legítima


A Constituição Brasileira, em seu artigo 206- II,  estabelece que o ensino será ministrado com base no principio do pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas. Portanto, é perfeitamente legítima a prática e a opção dos pais pela educação diferenciada. Além disso, é dever do estado garantir esse pluralismo possibilitando a escolha pela educação diferenciada, pública e gratuita, ao pais que assim o desejarem.  Ainda sobre esse tema, o artigo 2 da Convenção da UNESCO relativa à luta contra as discriminações em matéria de ensino afirma taxativamente que não é discriminatório manter centros de ensino separados para meninos ou meninas, sempre que essas escolas ofereçam facilidades equivalentes de acesso e ensino, disponham de pessoal igualmente qualificado, de locais e equipamentos de igual qualidade, e permitam o seguimento de programas iguais ou equivalentes. A plena vigência desse artigo foi recordada em 1999 pelo comitê de Direitos Econômicos Sociais e Culturais da ONU.    E o artigo 26.3 da Declaração Universal dos Direitos Humanos indica que os pais tem o direito preferencial de escolher o tipo de educação que será dado a seus filhos.   Portanto, um colégio brasileiro pode oferecer a educação especializada, diferenciada por gênero, e os pais têm o direito de escolher esse tipo de escolarização, se assim julgarem preferível.  A Constituição Brasileira em seu artigo 205, assegura ainda que o primeiro objetivo da educação é o pleno desenvolvimento da pessoa, e esse pleno desenvolvimento pode ser entendido de forma diferente pelos pais, de acordo com suas convicções.  Assim, é plenamente constitucional que os pais escolham o estilo educativo que desejam, e que os colégios ofereçam um determinado modelo ou outro.   Cabe aos poderes públicos assegurar que todos os pais possam escolher, e garantir a gratuidade do ensino obrigatório, independentemente do modelo de organização escolar que tenham escolhido.




[1] - GRAY, John. Homens são de Marte, Mulheres são de Venus. Trad. Alexandre Jordão. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1999.

[2] - A respeito, cfr. FIZE, M.: Les pièges de la mixité scolaire. París, Presses de la Renaissance, 2003.

[3] -  Vejam-se por exemplo os seguintes títulos: CONLON, R. W.: "Teaching the boys: New research on masculinity and gender strategies for schools' Teachers College Record, 98,2, Invierno 1996, pp. 206-235.

KINDL0N, D. y M. TH0MPS0N, M.: Raising Cain: Protecting the Emotional Life of Boys, New York, Ballantine, 1999. Edición española: Educando a Caín, Buenos Aires, Ed. Atlántida, 2000.

KLEINFELD, J.: "Student Perfomance: Males versus females": Public lnterest, 3:20, 1999, pp. 134.

P0LLACK, W.: Real Boys: Rescuing Our Sons from the Myths of Boyhood, New York, Random House, 1998.

H0FF S0MMERS, C.: The war against boys: how feminism is harming our young men, New York, Simon and Schuster, 2000.

YATES, L.: "Gender Equity and the boys debate: What sort of challenge is it?" < of Sociology Journal>, 18:3, 1997, pp. 337-347. KRAEMER, S: "The fragile male" British Medical Journal 2000, pp. 1609-1612.

[4]-  AMERICAN ASSOCIATION OF UNIVERSITY W0MAN: How schools shortchange girls, Washington, DC, 1992.

[5] - Cfr. a respeito:

LEE, V. E. y BRYK, A. S.: "Effects of single-sex secondary schools on student achievement ans attitudes': Journal of Educational Psychology, 1986, pp. 78, 38 1-395.

CAIRNS, E: "The relationship between adolescent perceived self-competence and attendance at single-sex secondary school". British Journal of Educational Psychology, 1990, pp. 60,207-211.

EDER, D.: "The cycle of popularity: Interpersonal relations among female adolescents". Sociology of Education, 1985, pp. 58, 154-165.

MAEL, F. A.: "Single-sex and coeducational schooling: Relationships to socioemotio nal and academíc devolopment". Review of Educational Research, 68:2, 1998, pp. 101-129.

MONACO, N. M y GAIER, E. L.: "Single-sex versus coeducational environment and achievementin adolescent femaIes". Adolescence, 1992, pp 27, 579-594.

ASTIN, A. W.: "On the failure of educational policy". Change, 1977, pp. 40-45.

SMITH, D. G.: "Women's colleges and coed colleges: Is there a difference for women". Journal of HigherEducation, 1990, pp. 61,181-197.

[6] - PAYNE, M. A. y NEWTON, E. H.:"Teachers'and students'perceptions of the major advantages and disadvantages of coeducational secondary schooling". Australían Journal of Education, 34, 1990, pp. 67-86.  Ver também: HAWLEY, R.:"A case for boys'schools' en HOLLINGER, D. K. y ADAMSON, R. (eds.): SingIe-sex sdiooling: Proponents speak, Washington, DC, U. S. Departament of Education, pp. 11-44.

[7] - Há uma expressiva bibliografia que recolhe os dados comprovando a primazia acadêmica dos colégios de educação separada. Por exemplo: LEE, V. E. y BRYK, A. S.: "Effects of single-sex secondary schools on students achievement and attitudes" Journal of Educational Psychology, 78, 1986, pp. 381-395.

RIORDAN, C.: Girls and boys in shool: Together or separate?, New York, Teachers College 1990.

SMITH, D. G.: "Women's colleges and coed colleges: Is there a difference for women?". Joumal of Higher Education, 61,1990, pp. 181-197.

YOUNG, D. J. y FRAZER, B. J.: "Science achievement of girls in single-sex and coeducational schools" Research in Science and Technological Education, 8, 1990, pp. 5-20.

MAEL, F. A.: "Single-sex and coeducational schooling: Relationships to socioemotional and academic devolopment". Review of Educational Research, 68:2, 1998, pp. 101-129.

 



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